O Saros é um dos ciclos mais famosos da astronomia de eclipses. Depois de aproximadamente 18 anos, 11 dias e 8 horas, a geometria entre Sol, Terra e Lua retorna a uma configuração parecida. Por isso, um eclipse costuma ser seguido por outro semelhante pertencente à mesma série.

Por que 223 meses funcionam tão bem

Um eclipse exige simultaneamente Lua cheia ou nova, proximidade de um nodo orbital e uma distância lunar compatível. Essas condições dependem de ciclos diferentes: mês sinódico, mês dracônico e mês anomalístico. Por coincidência, 223 meses sinódicos correspondem quase a números inteiros dos outros dois ciclos.

Isso faz a Lua retornar a uma fase semelhante, perto do mesmo nodo e com distância parecida. A repetição não é perfeita; pequenos resíduos fazem a geometria se deslocar de eclipse para eclipse.

Os babilônios e a descoberta de periodicidades

Astrônomos babilônicos, trabalhando com séries de observações ao longo de séculos, reconheceram padrões que permitiam antecipar temporadas e recorrências. O período de 223 meses era conhecido na tradição antiga, mas a palavra “Saros” não era o nome babilônico desse ciclo de eclipses.

A NASA destaca essa distinção histórica: “sar” era um termo babilônico associado a outro intervalo numérico, e o uso de “Saros” para eclipses apareceu muito depois.

Edmund Halley e o nome Saros

Em 1691, Edmund Halley adotou o termo “Saros” para o ciclo de 223 meses, baseando-se numa cadeia de referências antigas e bizantinas. O nome permaneceu, apesar de sua origem histórica imprecisa. Esse é um bom exemplo de como a terminologia científica pode sobreviver mesmo quando sua etimologia original é problemática.

O efeito das oito horas

O Saros não é um número inteiro de dias: sobra aproximadamente um terço de dia. Em oito horas, a Terra gira cerca de 120 graus de longitude. Por isso, um eclipse da mesma série ocorre em uma região diferente do planeta após um Saros.

Depois de três Saros — ciclo chamado Exeligmos — a hora do dia retorna aproximadamente ao mesmo setor de longitude, embora outras diferenças orbitais continuem acumulando.

Uma série nasce, cresce e morre

Uma série de Saros não repete o mesmo eclipse para sempre. Começa com eventos rasantes, evolui ao longo de séculos, pode produzir eclipses parciais e totais profundos, e depois volta a ficar rasante até terminar. Uma série lunar pode durar mais de um milênio.

Cada eclipse moderno, portanto, possui uma genealogia. O eclipse total de 14 de março de 2025, por exemplo, pertence ao Saros 123, o mesmo do eclipse total de 3 de março de 2007.

Saros não é um mecanismo físico separado

O ciclo não “causa” o eclipse. Ele é uma consequência aritmética das periodicidades orbitais. A causa continua sendo a geometria Sol–Terra–Lua perto dos nodos. O Saros é uma ferramenta para reconhecer quando condições semelhantes voltam a ocorrer.

Do cálculo antigo ao catálogo digital

Hoje, efemérides numéricas calculam eclipses diretamente a partir de modelos orbitais, sem depender do Saros para previsão. Mesmo assim, o ciclo continua extremamente útil para organizar eventos, comparar eclipses aparentados e explicar a evolução de suas geometrias ao longo dos séculos.

Como explorar uma série de Saros

  • Escolha um eclipse e identifique seu número de Saros no catálogo.
  • Abra a tabela da série e compare magnitude e gamma entre gerações.
  • Observe como a totalidade cresce, atinge um máximo e depois diminui.
  • Compare mapas separados por um Saros para visualizar o deslocamento longitudinal causado pelas oito horas extras.

Perguntas frequentes

Saros significa “18 anos”?

Não exatamente. É 223 meses sinódicos, cerca de 18 anos, 11 dias e 8 horas, com variações de um dia conforme anos bissextos.

Um eclipse se repete no mesmo lugar após um Saros?

Geralmente não. As oito horas extras deslocam a Terra cerca de 120° em longitude.

Os babilônios usavam a palavra Saros?

Não para esse ciclo de eclipses. A NASA atribui a aplicação do termo a Edmund Halley em 1691.